Alimentação da pessoa idosa não deve ser feita só de restrições e suplementação
Professora e nutricionista com experiência na atenção à saúde do idoso Maruska Dias Soares debateu sobre os aspectos nutricionais da pessoa idosa durante aula do curso de Gerontologia
A quarta aula do curso de extensão em Gerontologia aconteceu no dia 31 de maio e teve como temática as particularidades da alimentação no idoso. O módulo foi ministrado pela professora e nutricionista Maruska Dias Soares, mestra em Saúde Pública pela Universidade Estadual do Ceará (UECE), que debateu a importância da alimentação para o envelhecimento ativo e saudável. Além de manter bons hábitos ao longo da vida, durante a terceira idade é preciso ficar ainda mais atento, já que a presença de doenças e o uso de medicações podem influenciar sobre o estado nutricional desses indivíduos.
Três documentos são considerados essenciais para a compreensão da nutrição da pessoa idosa: o Guia Alimentar para a População Brasileira, o Fascículo 2 sobre a utilização deste guia e a Diretriz da Sociedade Brasileira de Nutrição (BRASPEN) para a terapia nutricional no envelhecimento.
O Guia Alimentar, lançado em 2006 e atualizado em 2014 por cientistas do Ministério da Saúde, classifica os alimentos de acordo com o grau de processamento, dando ênfase positiva ao consumo diário de frutas, legumes, verduras e carnes. O arroz e feijão, dupla conhecida do prato brasileiro, é apontada como a combinação perfeita de nutrientes essenciais ao organismo humano. Por outro lado, já que possuem diversos aditivos químicos prejudiciais à saúde, como os conservantes, os alimentos ultraprocessados recebem sinal vermelho. Alguns exemplos são salgadinhos fritos, salsicha, hambúrgueres e refrigerantes. “Os ultraprocessados estão relacionados ao surgimento de doenças crônicas não transmissíveis e outras comorbidades que levam a uma maior mortalidade da população”, explicou Maruska.
Já o Fascículo 2 foi criado como um protocolo de uso do guia alimentar focado na alimentação do idoso. Com linguagem de fácil entendimento, dentro dele há um formulário com perguntas e respostas sobre os hábitos de consumo alimentício, que pode ser feito por qualquer pessoa, a fim de situar e debater sobre a saúde alimentar da pessoa idosa mais próxima.
A Diretriz disponibilizada pela BRASPEN apresenta questões sobre a terapia nutricional no envelhecimento e tem sido amplamente utilizada por profissionais da área, sendo útil também para a leitura e conhecimento da população em geral. Quando um paciente maior de 60 anos apresenta riscos nutricionais, como desnutrição, perda de peso maior que 5% em três meses e IMC menor que 20kg/m², é recomendada esta terapia, que consiste no uso de suplementos nutricionais associados à via oral, e dependendo do caso, pode acontecer por meio de sonda ou via parenteral. “Temos que considerar também o estresse físico e emocional, os pacientes fragilizados e as alterações de humor, como depressão, demência e anorexia”.
A professora ainda alertou para o fato de que o processo de envelhecimento traz alterações físicas e orgânicas capazes de afetar a nutrição na terceira idade. As principais estão relacionadas a fatores físicos, metabólicos, psicossociais e patológicos. Algumas vezes, essas mudanças estão ligadas a doenças, mas também podem fazer parte da ordem natural do envelhecer. Esse cenário contribui para o bombardeamento que os idosos recebem da necessidade de utilizar suplementos e restringir a alimentação, em muitas circunstâncias sem nenhuma recomendação médica. “As orientações são necessárias e precisam aumentar o afeto do indivíduo com a alimentação, e não fazer dela a vilã da história”.
A taxa metabólica basal, ou seja, a quantidade energética que o corpo necessita para manter seu funcionamento, diminui ao longo do tempo. Com a redução, a pessoa idosa tende a ter menos apetite. Isso significa que a quantidade de alimentos ingeridos por quem tem 90 anos não será a mesma de quem tem 30. A diminuição, além de ocorrer de forma natural, pode ser influenciada por doenças e fatores farmacológicos que pioram o quadro. A polifarmácia, isto é, o uso de diversos medicamentos simultaneamente, é capaz de trazer uma série de impactos no aparelho digestivo e na questão alimentar, tais como mudanças na percepção de sabor e nas papilas gustativas.
Distribuir as alimentações diárias em 6 vezes ao dia, estimula o funcionamento intestinal e evita comer fora de hora. Praticar atividades físicas que estão dentro das condições de cada um também é fundamental. “A caminhada é talvez a forma de atividade física mais democrática e deve ser sempre estimulada com segurança”, recomenda Maruska. Manter refeições principais, como café da manhã, almoço e jantar estão no conjunto da boa prática alimentar para todas as pessoas, independente da faixa etária. Estabelecer horários regulares, adequando ao uso de fármacos, é indispensável para o idoso. Entretanto, é preciso que os bons hábitos comecem desde cedo e que exista orientação profissional. “Para alcançar o envelhecimento saudável, a infância, a adolescência e a fase adulta devem ser saudáveis”.
Saiba mais:
A professora também recomenda a leitura do documento sobre os dez passos para a alimentação saudável das pessoas com mais de 60 anos, publicado pelo Ministério da Saúde.
Texto: Alicce Rodrigues